Você já deve ter se perguntado por que algumas pessoas costumam trair.
Neste artigo, quero apresentar a você algumas considerações da Psicanálise a respeito da traição.
Minha intenção não é julgar o comportamento que tanto machuca a pessoa traída, mas sim apresentar algumas reflexões sobre essa amarga situação.

A Traição e o Sofrimento
De um lado, muitas pessoas sofrendo por terem sido traídas e, de outro, outras tantas arrependidas por terem traído pessoas que amavam.
Tanto de um lado como do outro, há muito sofrimento.
Sempre imaginamos o sofrimento apenas de quem foi traído.
Mas quem trai também pode ficar atormentado pela culpa de não ter mantido o pacto feito com a pessoa por quem jurou fidelidade.
Sim, a traição é a violação de um pacto estabelecido pelo casal.
Pacto de fidelidade e lealdade.
Na maioria das vezes, esse pacto não está apenas implícito no compromisso firmado, mas também é celebrado na cerimônia de casamento.
Antes mesmo do casamento, esse pacto é firmado também nas juras de amor, em falas como:
Meu amor, pra mim só existe você.
Não tenho interesse por mais ninguém.
Quero você e só você pro resto da minha vida.
Tudo isso parece trazer para os dois a segurança de que não haverá traição.
Mas, quando um dos dois quebra esse pacto, há muita dor e revolta por parte de quem foi traído.
A quebra de confiança
A primeira reação que costumamos ter numa situação de traição é ficar com raiva de quem traiu.
É claro que não é responsável afetivamente quem trai, mas vamos tentar entender um pouco mais o que pode levar uma pessoa a recorrer à traição.
O pacto de fidelidade firmado por um casal tenta estabelecer o cumprimento de uma promessa de eternização do desejo de ambos.
Tenta ditar que o desejo do presente permanecerá no futuro e, se não permanecer, haverá a lealdade de quem não deseja mais manter-se na relação para propor a separação.
E isso requer muito amadurecimento.
O problema que se vê diante de uma situação como essa nem é o desejo mudar depois de algum tempo, mas querer manter um relacionamento fora desse núcleo regido por esse pacto.
Quem trai se sente entregue a um novo desejo e esse desejo o conecta com seus impulsos do id e busca ignorar as repreensões do superego.
E é o superego que geralmente traz para o traidor uma sensação de culpa porque afinal ele sabe o pacto que firmou.
Porém, como se sente dividido entre o compromisso firmado e o novo que se apresenta em sua vida, tem uma sensação de poder, de liberdade…
Poder de ultrapassar um pacto e reviver questões inconscientes mal resolvidas do seu passado.
Quem trai pode até afirmar que nem tinha procurado por alguém, dizer que tudo aconteceu ocasionalmente.
Mas não há acaso para o nosso inconsciente.
O psiquismo de quem trai e quem é traído
Por falta de amadurecimento emocional, muitas vezes, quem trai não quer decidir.
Acredita que o melhor é continuar a ter as duas pessoas em sua vida.
As primeiras lições de amor, vindas da família, muitas vezes, indicam que o casamento não deve ser desfeito…por nenhum motivo…
Além disso, é muito comum que a pessoa, ao trair, esteja inconscientemente dividindo duas formas de amor que um dia teve por sua mãe ou seu pai e, depois da castração, teve que fazer uma reformulação, passando a ter por ela (ou ele) uma grande ternura e a procurar, depois que cresceu, outras pessoas para poder viver com elas o amor sensual.
Com o passar do tempo, não é raro que o casal passe a se tratar de maneira maternal ou paternal. Um passa a entender que pode cuidar do outro.
E, quando nasce o primeiro filho, muitas vezes, passam inclusive a se chamar de pai e mãe.
Inconscientemente, eles vão reafirmando suas transferências e se conectando cada vez mais com suas questões familiares mal resolvidas.
Em casais heterossexuais, por exemplo, a mulher pode passar a ver no marido a figura de um pai protetor que traria segurança para toda a sua vida, mesmo sem depender dele financeiramente. Essa proteção pode ser apenas emocional.
Nesse mesmo exemplo, o marido pode ver na esposa uma mãe… a mãe de seus filhos e inconscientemente a mãe dele também.
Assim, o amor sensual passa a não coincidir com a ternura que se dirige a quem passa a substituir inconscientemente pai ou mãe.
Esse arranjo geralmente oferece recompensas inconscientes para ambos e é necessário que cada um mergulhe em si mesmo, em seus conteúdos inconscientes para que não vivam novamente, com outras pessoas, em outros relacionamentos, essa mesma situação.
Como lidar com a traição?
Lidar com uma questão como essa requer tempo e elaboração psíquica…
Requer lidar com essa questão do presente e com as outras do passado…
Revisitar a história de sua família e as outras histórias de amor que ela viveu…
O que a pessoa traída decide em relação a isso tem relação com essas histórias pessoais e com as representações delas em seu inconsciente.
Pais que enfrentaram traições podem ter mostrado a seus filhos que aceitar essa condição é necessário para manutenção de segurança e do senso de família.
Manter o casamento, romper o compromisso, separar-se….
Qualquer que seja a decisão tomada por ambas as partes vai trazer uma grande alteração na vida dos dois.
Lidar com isso é essencial para reverter o sofrimento que advém da traição.
Se este é um assunto que, de alguma forma, lhe causa sofrimento, é possível que a Psicanálise lhe ofereça condições de elaborar de um modo diferente suas percepções sobre essa quebra de pacto de fidelidade.
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