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Noite de almirante: breve análise psicanalítica

Você já se perguntou se uma jura de amor pode realmente resistir ao teste do tempo e também das tentações? 

Neste artigo, vamos analisar ‘Noite de Almirante’, um excelente conto escrito por Machado de Assis.

“Noite de almirante” tece uma trama que explora a paixão e a fidelidade, num jogo entre desejo e dever.

Vamos observar, a partir da ótica da Psicanálise, o que realmente nos move e o quanto esse pequeno conto pode nos ensinar sobre nossa estrutura psíquica. 

O conto

marujo

‘Noite de Almirante’, publicado em 1884, é um exemplo brilhante da  habilidade que Machado de Assis tinha de capturar a complexidade da alma humana. 

Nesse conto, Machado de Assis nos leva a uma viagem que vai muito além da superfície de uma história de amor e traição, fazendo com que a gente busque explorar mais profundamente as promessas feitas e, muitas vezes, quebradas. 

Afinal, o que seria uma promessa senão uma tentativa de domar o desejo, de controlar o destino?

Nesse conto, Machado de Assis não apenas apresenta a história de Deolindo e Genoveva, mas nos convida a refletir sobre as verdades universais do desejo, da lealdade e das consequências de nossas escolhas.

De modo resumido, a história se passa entre o marujo Deolindo e Genoveva. 

Entre os dois, uma jura de amor e fidelidade eterna, segundo o conto, realizada dessa maneira:

“—Juro por Deus que está no céu. E você? 

— Eu também. 

— Diz direito. 

— Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte. 

Estava celebrado o contrato”. 

O enredo indica que a relação entre os dois foi breve, porém intensa. 

Tinham se conhecido três meses antes de Deolindo precisar partir e ficaram completamente apaixonados. 

Estavam, então, vivendo o auge de uma paixão, que é o estado de privação do princípio da realidade. 

A paixão 

Quando se apaixonam, as pessoas imaginam que será “para sempre”, que encontraram aquela outra pessoa que seria a alma gêmea, capaz de completá-las, de acabar com sua sensação de incompletude. 

E isso é uma ilusão, porque a incompletude é uma condição humana que não se esgota, e ainda bem que não se esgota… porque é o que nos faz buscar, desejar, nos coloca em movimento.

No conto, depois de uma viagem de dez meses, Deolindo estava de volta e, após as brincadeiras dos amigos, correu para ver Genoveva, aguardando passar a noite com sua amada. 

Mas, quando foi tentar encontrá-la, ela já estava morando com outro homem e o marujo teve que se contentar com a dor da traição e com uma mentira perante os amigos. 

A traição e a mentira

traição

Ele, que julgou a mentira de Genoveva por ter descumprido seu juramento de amor, também mentiu diante dos amigos para manter seu orgulho intacto.

Todas as perguntas de seus amigos sobre sua noite com Genoveva, no final do conto, foram respondidas por Deolindo, segundo palavras do conto…

 “com um sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite. Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.” 

Assim termina o conto.

No decorrer de seu enredo, a gente entende que Deolindo se manteve fiel ao seu amor, mesmo tendo visto muitas mulheres bonitas nos 10 meses em que passou viajando. 

Apaixonado, ele procurava se manter firme em suas crenças. Tinha como meta cumprir o “contrato” que tinha celebrado com sua amada. 

Aliás, dá para perceber, no uso da palavra “contrato”, um teor nada romântico para o juramento que tinha sido feito. 

Cumprir esse pacto era como uma obrigação judicial, mesmo que no futuro ele não fosse mais uma manifestação de amor. 

Para se manter fiel, ele tinha renunciado a muitas mulheres. Achava que nem todas lhe dariam atenção porque era apenas um marujo.

O compromisso firmado com Genoveva dava a ele a possibilidade de se imaginar almirante, o que também era confirmado pelos amigos dele. 

O pacto amoroso elevava a imagem que ele fazia de si mesmo e garantia o direito a uma noite condizente com o lugar almejado… uma noite de almirante. 

Traidora?

Desde o início, Genoveva, foi descrita como “uma caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido”. 

Com pouca caracterização física, seus atributos subjetivos sugerem que ela não cumpriria a promessa. 

 Assim que outro homem ofereceu a ela casa e uma vida melhor, ela aceitou.

 No conto, quando os dois se encontram, o narrador indica que ela tentou resistir, mas cedeu depois do tanto que o mascate insistiu.

 Deolindo jurou e cumpriu. Conseguiu frear seu desejo por outras mulheres, seguindo seus valores morais. 

 Para ele, o superego,  nossa instância psíquica responsável pelas regras e limites, se sobrepôs ao id, que é a instância responsável por aquilo que desejamos. 

Enquanto ele se dirigia até a casa da velha Inácia, onde morava Genoveva antes de sua viagem, ele se preparava para dizer a Genoveva:

 “Jurei e cumpri”. Não imaginou que a amada não tivesse cumprido o juramento.

No conto, o narrador indica:

“Não havia descrer da sinceridade de ambos, ela chorava doidamente, ele mordia o beiço para dissimular. Afinal separaram-se”. 

Quem tinha demonstrado maior sofrimento com a partida dele ele sabia muito bem que tinha sido Genoveva. 

Por isso, ele cobrou dela uma explicação e aí ela disse:

“Quando jurei era verdade. Tanto era que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram outras coisas… Veio este moço e eu comecei a gostar dele”. 

Brilhante essa fala de Genoveva!

Aqui Machado de Assis sintetiza perfeitamente a conexão dela com seu desejo, afinal, sem amor, a promessa não precisaria ser cumprida.

Era assim que ela pensava.

Você concorda com Genoveva? Ou dá razão para Deolindo?

homem traído

Id e superego

No conto, Genoveva é apresentada como alguém movida por seus impulsos, tendo uma estrutura psíquica diferente da que se observa em Deolindo: ela conteve bem menos do que ele as suas pulsões, o id. 

Mas ele ainda tentou impor a ela o seu modo de pensar e agir.

No conto, a fala dele indica muito bem isso.

 “−Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de ninguém…” 

 Para ele, o juramento não podia ser quebrado, era “uma obrigação eterna”, um “contrato” firmado.

 Ela disse para ele que “o coração mudou”. Havia mudado o que ela sentia e, desse modo, não havia motivo para manter o juramento. 

Aqui dá para notar uma manifestação do id, que funciona de acordo com o princípio do prazer, exigindo uma satisfação completa e rápida das pulsões. 

Não se importa com consequências ou bom-senso, como também não se importa com o bem-estar dos outros.

É exatamente o princípio do prazer que fica mais aflorado no auge da paixão, em detrimento do princípio da realidade. 

Em outras palavras, a ilusão predomina e faz o apaixonado desconsiderar evidências de que o outro não seja tão admirável como ele gostaria que fosse. 

Genoveva agiu de acordo com o id. 

De acordo com Freud, seria possível afirmar que o objeto da pulsão mudou e ele realmente pode variar bastante na busca pela satisfação. 

O sujeito recorre a objetos substitutos ao longo da vida e isso ocorreu com essa personagem, mas não com Deolindo porque ele, para cumprir com o prometido, conteve suas pulsões e deixou que o superego ditasse por completo seu modo de agir e pensar. 

São dois modos distintos de lidar com as pulsões. 

Genoveva, numa visão superficial, pode ser vista como falsa e mentirosa, mas, por ser uma personagem machadiana, não foi dada essa visão reducionista para ela. 

Na segunda metade do conto, surge uma Genoveva que demonstra uma doce simplicidade quando ela confessa sua quebra do juramento de amor. 

Ela é deslocada do lugar de ser falsa, para um outro, o da sinceridade. 

Essa condição de falsidade, de mentira, é justamente a de Deolindo no final do conto. 

Isso que fez de Machado de Assis o gênio da Literatura que ele foi.

Genoveva, uma personagem sem culpa

A vida de Genoveva era dura e sua pobreza, evidente.

No conto, a casa dela foi descrita assim: “a mesma casinha dela, tão pequenina, e a mobília de pé quebrado, tudo velho e pouco”. 

Vivia de favores, como é insinuado quando brigou com a velha Inácia e afirmou que “não precisava de esmolas”. 

Pelo que diz Sinhá Inácia e pela descrição inicial de Genoveva, o leitor pode ter uma visão da moça como alguém volúvel e até mesmo sem compostura. 

No entanto, essa imagem não se confirma quando Genoveva recebe Deolindo em sua nova casa. 

A atitude da moça marca a distância necessária entre os dois, distância imposta por sua nova condição, tanto que deixou a porta da casa aberta e não demonstrou, ao ver Deolindo, nenhuma “comoção ou intimidade”. 

A cabocla, dessa maneira, delimitou o lugar dele como de uma visita. 

Deolindo fez questão de entregar os brincos que tinha comprado para Genoveva. 

Eles representavam o esforço dele: um esforço que é de ordem financeira, mas que também se liga à manutenção da sua fidelidade. 

Além do amor, da fidelidade de Deolindo, os brincos podem ser, ainda, uma metáfora da feminilidade de Genoveva. 

A simbologia do feminino é muito forte no conto e, logo no início do enredo, revela como Deolindo e o próprio narrador veem a mulher: 

“E ela que lhe guardaria? 

 Mais adiante, descobre-se que a moça não havia guardado nada para o marujo; nem mesmo o sentimento que a havia levado a fazer o juramento. 

Deolindo imaginava que a amada poderia ter bordado uma âncora num lenço afinal ela sabia bordar muito bem. 

A imagem que ele tem dela é de mulher prendada e pacata, o que nos remete à clássica personagem de Homero em Odisseia, Penélope, a esposa fiel que tece como maneira de afastar os pretendentes e aguardar seu amado Ulisses por longos  dez anos depois da Guerra de Troia. 

 Mas o que ocorreu na realidade foi bem diferente disso: Genoveva não se manteve fiel nem durante os dez meses da ausência do marujo, nem tinha nada a oferecer a ele quando o encontrou. 

Quando Deolindo imaginou qual seria o bordado que a moça lhe teria feito, veio à sua mente uma âncora, o que pode ser associado à fixidez, à falta de movimento. 

Novamente, a ideia de rigidez, apreço a regras e normas vêm à tona associada às ações de Deolindo no enredo. 

Ao revê-la, o marujo encontra Genoveva cozinhando para outro, a quem ela, de fato, manteve-se fiel. 

casal namorando

Deolindo impulsivo

Frustrado e ferido em seu orgulho, Deolindo mostrou-se passional: desde que soube da traição, pensou em matar e morrer.

 Mas, Genoveva não acreditava que ele cumpriria com nenhuma das suas ameaças.

Logo que contou à amiga que ele tinha falado que iria se matar, afirmou assim: 

 “Qual o quê! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as coisas, mas não faz”. 

 Dessa forma, aos poucos, a narrativa tende a minimizar a mentira de Genoveva. 

 Depois da simetria inicial quando os amantes juraram mútua fidelidade, vem a assimetria porque ela trai enquanto ele permanece fiel. 

 No fim de tudo, a simetria se inverte, porque a mentirosa sustenta firmemente a sua traição e o seu novo relacionamento, e o verdadeiro prefere mentir para não se sentir humilhado diante de seus amigos e ainda é julgado por Genoveva como aquele que fala as coisas, mas não cumpre.

Assim, o mesmo é apresentado para os dois: ambos dizem o que não vão cumprir. 

Ficam, então, algumas perguntas:

 Qual o peso de uma palavra? 

O que elas carregam de nossas histórias? 

E que significado atribuímos a elas?

Juramento, mentira e traição

Nesse conto, o que a jura de amor significava para Deolindo era bem diferente do que para Genoveva.

 Além disso, a realidade exterior, a opinião dos outros é uma importante fonte de satisfação, já que o ser humano gosta de ser admirado, de produzir inveja, se sentir superior ao outro. 

 A realidade é frustrante para Deolindo; ela cria uma Genoveva que não é real. 

Ao deixar seus companheiros imaginarem o que ele de fato não teve – sua noite de almirante – ele experimenta certo prazer, vivenciando, num plano imaginário, o que não obteve na realidade. 

Assim, as compensações imaginárias parecem dar conta da realidade que ele procura criar. 

O conto se inicia com as palavras dos amigos de Deolindo: 

“Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva…” 

Quando ouviu essas palavras, Deolindo sorriu. Confirmou que procuraria a amada e passaria a noite com ela. 

Mesmo depois da decepção que teve, no desfecho do conto, ele também sorriu, agora como forma de não assumir diante dos amigos que Genoveva não o queria mais.

A vergonha diante do que tinha acontecido fez Deolindo mentir. 

 Aquele que cobrou de Genoveva sinceridade e manutenção da palavra dada não sustentou a verdade para não se sentir diminuído perante os amigos. 

É como se, não assumindo a realidade, ela pudesse se alterar. 

 Esse é um exemplo de um mecanismo de defesa que usamos, a negação.

 A negação é o recurso que utilizamos quando não conseguimos lidar com o que a realidade nos apresenta.

homem carregando âncora

Conclusão

Como conclusão, é possível afirmar que o tema da infidelidade parece ter sido utilizado por Machado de Assis como um elemento com a função maior de nos fazer refletir sobre a condição irônica a que Deolindo se submeteu:  a de sujeito vitimado pelas circunstâncias do destino, sobre o qual ele não possui o menor controle, mas pode ser vítima também do próprio caráter arbitrário da natureza humana.

Machado de Assis apresentou brilhantemente nesse conto como somos contraditórios, como cobramos dos outros o que nem sempre conseguimos ou queremos fazer.

Lidar com essa ambiguidade é uma difícil tarefa para o ser humano, sobretudo quando ele tem um superego inflado.

Como em quase toda a obra de Machado, uma leitura superficial tenderia a colocar Genoveva como a grande vilã, mas brilhantemente ele nos mostra que a realidade das coisas não é maniqueísta.

Somos muito mais do que vilãs ou mocinhas nas histórias que vivemos.

E agora, respondendo à pergunta inicial, uma jura de amor quase nunca é eterna, porque nosso objeto de desejo se altera.

Mas, parafraseando Vinicius de Moraes, o amor de Genoveva foi infinito enquanto durou, mesmo que tenha durado apenas poucos meses.

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Muito obrigada!

Foto de Psicanalista Rosana Castro

Psicanalista Rosana Castro

Possuo Formação e Pós Graduação em Psicanálise e tenho como objetivo ajudar você a viver de forma mais leve e equilibrada. Saiba mais a respeito de mim clicando na página "sobre".

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