Imagine a seguinte situação: você vive um relacionamento amoroso com uma pessoa que parece estar muito envolvida na relação e que passa a querer tornar essa união cada vez mais estreita, tão estreita que nela só cabem vocês dois.
No início, essa pessoa fazia muitos elogios a você. Além disso, estava sempre muito presente e era extremamente agradável e carinhosa.
Como era bom estar ao lado dela!
Porém, com o passar do tempo, foram surgindo muitas cobranças. Essa pessoa passou a querer que você só desse atenção a ela.
Você é induzida a se afastar de seus amigos e de sua família.
Essa pessoa passa a te dizer que você não precisa de mais ninguém, somente dela.
Toda vez que você decide encontrar uma amiga ou ir sozinha em algum lugar, para demonstrar contrariedade, essa pessoa faz voto de silêncio… passa dias sem conversar com você.
Ou ainda sai dando a entender que pode ir em busca de outra pessoa para uma traição… e volta de madrugada afirmando que só está fazendo algo igual ao que você fez.
Isso lhe gera muita angústia e tristeza.
No dia seguinte, ao acordar, garante que não fez nada de errado porque, diferentemente de você, leva a sério o amor de vocês.
Com o passar do tempo, por ter decidido manter esse relacionamento, você percebe que se afastou de todos e que está sendo manipulada por essa pessoa que diz amar você.
Relacionamentos com pessoas manipuladoras têm um custo emocional muito alto e é sobre esse tema que este artigo vai tratar.
Duas formas de manipulação
Podemos considerar manipuladora a pessoa que pressiona ou tenta influenciar alguém a agir do modo como ela determina.
Uma pessoa manipuladora deseja controlar tudo à sua volta.
Existem duas formas de manipulação: a direta e a indireta.
A manipulação direta ocorre com a imposição da vontade do manipulador de maneira explícita, podendo haver o uso de agressões físicas e/ou verbais, além de ofensas, coerções e humilhações.
Já a manipulação indireta é mais sutil, porém tão problemática quanto a direta.
Nesse tipo de manipulação, o manipulador vai, por meio de opiniões, “brincadeiras”, conselhos e insinuações, incutindo na vítima uma percepção bastante negativa acerca de si mesma.
A manipulação indireta é muito comum em relacionamentos amorosos e em relações de amizade.
A mentira e a transferência de culpa são estratégias muito usadas para gerar no manipulado um sentimento de culpa e também muita submissão.
Como agem pessoas manipuladoras?
À primeira vista, pode parecer que ela faz isso por sentir-se superior a todos, mas, geralmente, é algo bem diferente disso que ocorre.
Por insegurança, o manipulador precisa manter as outras pessoas (ou até uma pessoa específica) sob comando.
Com receio de ser abandonada ou de não conseguir do outro exatamente o que deseja, o manipulador não mede esforços para alcançar aquilo que pretende.
Porém, é importante deixar claro que, nem sempre, os interesses do manipulador se resumem em benefícios financeiros ou qualquer forma de segurança material.
Não é raro que o manipulador tenha como principal busca que a atenção da pessoa manipulada esteja totalmente voltada para ele.
Para entendermos o que torna uma pessoa manipuladora, encontramos uma série de razões inconscientes que podem embasar esse tipo de comportamento.
Na Psicanálise, cada sujeito tem sua singularidade, de maneira que não é possível afirmar categoricamente o que leva uma pessoa a adotar a manipulação como forma de se relacionar com os outros.
Mas, de uma maneira geral, é possível afirmar que essas pessoas frequentemente lutam para lidar com alguma frustração que não conseguiram elaborar.
Para elas, é difícil aceitar um “não” e tudo deve se encaixar em suas expectativas, elevando seus desejos acima de tudo e todos ao seu redor.
Priorizam seus próprios interesses, muitas vezes sem se importar se podem acabar prejudicando os outros para conseguirem o que desejam.
Os manipuladores mentem como forma de controlar suas vítimas e inventam mentiras totalmente convincentes.
Fazem promessas mesmo que não tenham a menor intenção de cumpri-las.
São especialistas em fazer favores, mas eles nunca são de graça, tudo que eles fazem será cobrado no momento oportuno.
Amam fazer elogios: são verdadeiros especialistas na arte da bajulação.
Sabem fazer a pessoa que pretendem manipular se sentir especial para que, depois, possam ter mais controle sobre ela.
É comum que popularmente seja indicado que o manipulador seja um psicopata, mas isso não é verdade.
Pode-se afirmar que todo psicopata seja manipulador, mas o inverso não é verdadeiro.
Há vários motivos que podem levar uma pessoa a tornar-se manipuladora, sendo a psicopatia apenas um deles.
Um Pouco do Psiquismo das Pessoas Manipuladoras
Por trás do comportamento manipulador, muitas vezes, há um desejo ardente de mascarar suas próprias feridas internas.
Pessoas manipuladoras geralmente são muito inseguras e se tornam dependentes de seu modo de interação com as outras pessoas como forma de reverter a sensação de fragilidade emocional.
Indicar a insegurança como uma das causas para uma pessoa tornar-se manipuladora não é uma forma de minimizar o sofrimento que elas impingem às pessoas com que se relacionam.
Porém, fato é que traumas de infância mal resolvidos podem gerar diversos problemas na vida adulta, inclusive o comportamento de manipulação como forma de reduzir a sensação de vulnerabilidade.
Não é raro também o manipulador se posicionar como vítima, desviando a atenção de suas próprias ações manipuladoras.
E o vitimismo pode ser uma estratégia manipuladora eficaz porque não existe nada melhor do que gerar culpa como forma de dominação.
Identificar uma mente manipuladora pode ser desafiador, mas há ainda mais alguns sinais que podemos observar.
Esses indivíduos frequentemente são mestres na oratória, adaptando-se a qualquer situação para vender suas ideias.
Além disso, estão sempre exaltando suas próprias qualidades e buscando competir, mesmo que indiretamente, com outras pessoas ao seu redor.
É como se a mente do manipulador ficasse o tempo todo atenta a gerar uma autopromoção como forma de tentar se convencer das qualidades de que o manipulador parece se orgulhar tanto.
Os manipuladores são hábeis em diversas táticas, incluindo mentiras convincentes, promessas vazias, favores com segundas intenções e elogios exagerados.
Pessoas manipuladoras, muitas vezes, mostram-se inocentes, mudam de assunto constantemente, dizem meias verdades e induzem os outros à culpa.
Aliás, se você está constantemente se sentindo culpada ou insegura em um relacionamento, este é um importante um sinal de que seu parceiro pode estar manipulando você.
Outro sinal de alerta é se você se encontra frequentemente mudando suas opiniões ou comportamentos para agradar seu parceiro, mesmo quando isso vai contra seus próprios desejos e necessidades.
Bom… e aqui vem o ponto mais importante desse artigo.
Por que você se envolve com pessoas manipuladoras?
Claro que é importante você procurar reconhecer se está lidando com uma pessoa manipuladora para que consiga se afastar dela adotando uma postura firme que mostre que ela não tem o domínio de tudo, que você tem suas vontades próprias e sua individualidade.
Nesse sentido, é muito importante que você nunca se precipite quando perceber que a pessoa com quem você está interagindo está pressionando você a tomar uma decisão, a dar uma resposta.
Use o tempo a seu favor. Peça que a pessoa espere você pensar, refletir… para então poder dar uma resposta.
É fundamental também que você imponha limites às ações dos outros, aprendendo a falar “não”.
Mas, diante da certeza de estar se relacionando com uma pessoa manipuladora, torna-se importante você buscar internamente as razões de ter cedido tanto, de ter se mantido por tanto tempo vulnerável às ações dela.
Esse é, na verdade, o mais importante a ser identificado.
Quanto de dependência emocional tem nessa vulnerabilidade que te manteve conectada com alguém que estava manipulando você?
A manipulação é uma forma de interação conhecida por você ao longo de sua vida a ponto de ter sido internalizada como uma forma de amor?
Para além de entender que existe manipulação no seu relacionamento atual, é necessário que você procure reconhecer em quais outros relacionamentos – não apenas amorosos – também houve manipulação.
Não é raro que, ao fazer uma retrospectiva, você agora consiga reconhecer outras relações, talvez desde a infância, que tenham trazido um pouco ou muito de manipulação.
Isso revela que, em algum momento, você internalizou um comportamento que permitiu que o outro controlasse você.
Podem existir vários motivos para isso: carência, dependência emocional, baixa autoestima, insegurança, autoanulação.
Reflita com muita sinceridade:
Quando e como você passou a se anular?
Quando passou a agir de modo tão obediente para receber atenção, carinho?
Quando passou a desconsiderar seu valor, rebaixando sua autoestima a ponto de se anular para manter um relacionamento?
É de extrema importância que você reflita sobre esses pontos para que não se afaste dessa pessoa que tem manipulado você e acabe, daqui a algum tempo, encontrando outra que vai agir de maneira parecida.
Isso é muito, mas muito mais frequente do que possa parecer.
Conteúdos que não procuramos reconhecer e elaborar retornam, voltam a nos causar problemas.
Considere a possibilidade de iniciar um processo analítico para passar a lidar melhor com essas e outras questões.
Muitas pessoas mantêm, em suas mente e corações, o desejo de mudar os outros, de fazê-los perceber que deveriam mudar seu modo de agir e de pensar.
No entanto, isso é impossível: ninguém muda ninguém.
O que você pode conseguir, caso queira, é alterar o modo como você se vê e como se relaciona com as outras pessoas.
Tornar-se responsável pelo seu modo de se relacionar com os outros e menos vulnerável às ações de quem possa querer controlar você é sinal de amadurecimento psíquico.
Não tema se afastar de quem lhe faz mal.
Cuide-se.
Conclusão
O convívio com pessoas manipuladoras mina a paz de quem passa a ser controlado e, muitas vezes, menosprezado.
Reconhecer os comportamentos dos manipuladores é a única forma de se proteger desse tipo de problema.
E também reconhecer o motivo de você se relacionar com pessoas manipuladoras pode ser uma forma de se libertar desse tipo de relacionamento que traz tanto sofrimento.
Lembre-se sempre: é na busca pelo autoconhecimento e no autocuidado que encontramos condições para uma vida melhor.
Não cabe a nós mudar os outros, mas precisamos ter responsabilidade no que podemos melhorar em nós e em nossa vida.
Inclusive se você acredita que vive uma crise em seu relacionamento, leia este artigo.
E se você gostou do conteúdo, compartilhe com quem possa se beneficiar dessas reflexões e que sobretudo você sente que esteja passando por essa situação.
Muito obrigada!
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